O fato de ter perdido este ônibus me deixou presa por duas horas naquela rodoviária, como mecanismo de amenizar a minha espera comprei uma palavra cruzada e me direcionei até a plataforma de embarque.
Em direção a minha espera, uma senhora; negra, retinta, uma verdadeira tia Anastácia, me pediu algumas moedas para completar uma passagem até São Manuel. Seguindo a lógica de ajudar as pessoas em situações como esta, dei um pouco do dinheiro que tinha comigo e retomei o meu curso.
Enquanto eu rabiscava inúmeras letras naquela pequena revista, a mesma mulher se sentou ao meu lado. Puxei um assunto, afinal, minha família toda era de São Manuel, então perguntei se ela era mesmo de lá.
Com um sorriso muito gentil, ela me respondeu que iria para a casa da nora, visitar seu filho que não via há pelo menos seis meses. Prendeu a respiração por alguns segundos e com os olhos transbordando algumas lágrimas contidas, me contou que tinha dois filhos e que ambos estavam presos.
Me explicou o por que eles estavam lá; foram as drogas, ela me disse pesarosa. E após alguns minutos de conversa trocados, não demorou muito para que o ônibus dela chegasse à plataforma. Sendo assim, lhe dei um abraço e um beijo e desejei sorte. Ela agradeceu e disse que Deus me colocara no caminho dela, para que eu a ajudasse a visitar seu filho. Continuei ali, a fazer palavras cruzadas, até que minha atividade monótona fora interrompida por outra pessoa.
Desta vez, uma mulher de olhos claros e meia idade se sentou ao meu lado, estava muito arrumada e levava uma mala de rodinhas. Olhou para mim e comentou que o dia estava quente e que o esmalte de sua unha havia estragado por que ela batera em uma porta, concordei e ri.
No intuito de prolongar a conversa, perguntei para onde ela iria. Empolgada, ela me disse que iria mudar de vida, que iria para Campinas e de lá pegaria um voo para o Piauí. Ao perceber meu interesse e minha surpresa com sua confissão ela resolveu me dar mais alguns detalhes; me disse que estava cansada de Bauru, cansada de não viver sua própria vida e que dessa vez ela iria viver o sonho que merecia. Ela era fisioterapeuta e iria prestar um concurso e que com isso, esperava poder ajudar muitas pessoas. Também não demorou muito até que ela precisasse embarcar. Nos despedimos e eu a desejei sorte.
Durante a espera que se sucedeu, fiquei pensando nessas duas figuras que cruzaram o meu caminho naquela tarde. Ambas mulheres; esperançosas em meio as suas aflições, de classes sociais distintas, e com um objetivo em comum, a busca da felicidade, cada uma a sua maneira. Ao entrar no ônibus que me levaria ao meu destino final, contemplei o sol poente e seus tons avermelhados no céu, e pensei um pouco mais nessas duas mulheres até que entendi que eu estava encantada com as várias formas de ser feliz e o poder que se tem de mudar as coisas.
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